terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Sim, eles sabem sobre o extermínio de jovens javaneses

Breve e tosco escrevinhado, ficção, reflexão... 
por Selito SD



Em Bruzundangas, é sabido, os escrotos e escrotas, inclusive alguns e algumas tidos como de esquerda, adoram  insultar a inteligência dos javaneses e javanesas. 

O bando de dissimulados e dissimuladas (de esquerda(, a propósito do altíssimo número de jovens javaneses histórica e sistematicamente mortos pela polícia (pelo Estado), número esse maior que os de muitos países em guerra, vivem proliferando a ideia de que tal se dá porque a polícia de lá é despreparada,   e que medidas devem ser tomadas para as efetivas mudanças e blá blá blá e blá blá blá. 

Cabe ainda ressaltar que também sabem que os indígenas de lá (como, sabemos nós, os indígenas de cá, do Brasil) foram quase totalmente exterminados. 

São dissimulados e dissimuladas (de esquerda), pois muito bem sabem que tal coisa não existe. Dialética, ou melhor, maquiavelicamente, o pretenso despreparo das forças policiais trata-se, a bem da verdade, de um eficiente preparo da abjeta instituição (que se vira com bicos: crimes e contravenções para o complemento da renda), a baixíssimo custo, para os fins a que se objetivam, e muito bem pensado por parte da vampiresca "'branca gente de bens" bruzundanguense. Os propósitos elitistas são/estão garantidos.

Bem sabem, os e as biltres (de esquerda) daquele país, que a polícia, lá, existe para a agressiva proteção do patrimônio da "'branca' gente de bens", da qual eles e elas, de algum modo, são pertenças ou, simplesmente, seus beócios vassalos: os little thigh. Bem sabem que para isso ela, a polícia, foi e é, historicamente, ainda que ao peculiar jeitinho bruzundanguense, muito bem preparada. 

Bem sabem, os e as canalhas (de esquerda) de lá, que existe um acordo tácito, um conchavo subentendido, um pacto silencioso, na sociedade bruzundanguense. Bem sabem que tal trato se funda nas seguintes máximas:

a) Proteção Incondicional do Patrimônio e de seu portador, a saber: a "'branca' gente de bens" e seus beócios vassalos: os little thigh; e 

b) contra a ameaça, a saber: os javaneses e/ou não brancos e pobres, cabe a punição exemplar, podendo ser a Execução Sumária - inclusive a Execução Sumária Preventiva. Se é que me entendem... Penso que sim. 

Daí que... O dever do policial é defender o patrimônio e a corporeidade da "'branca' gente de bens". Isto posto, está livre a autoridade policial para atentar a seu bel prazer contra a corporeidade de qualquer javanes ou não branco e/ou pobre. 

Segundo alguns militantes (javaneses e não javaneses) de grupos ativistas* e simpatizantes, não há a Pena de Morte em Bruzundangas, por uma questão de praticidade e eficiência da taciturna e nefasta ordem firmada. Entendem eles que "para o Estado genocida a Execução Sumária é mais eficiente e não tem os altos custos que demandariam os, provavelmente, longos processos penais aos cofres públicos". 

E essa diabólica convenção é corrente desde a colônia, passando pelo império e chegando às repúblicas, a nova e a velha.

Parece razoável deduzir que se fosse realmente por despreparo, as "destrambelhadas" ações da polícia bruzundanguense, e as muitíssimas e sistemáticas tragédias resultadas quase sempre em chacinas não abateriam somente os javaneses e/ou não brancos e pobres. Outrossim, ao menos, atingiriam também parte (pequena que seja ou que fosse) da "'branca' gente de bens" e seus beócios vassalos: os little thigh

No mais recente ato de barbárie em uma das grandes cidades de Bruzundangas, 7 jovens foram exterminados por policiais, segundo comentou uma testemunha, motivados por uma aposta entre dois grupos de guardas do Controle Social, destacamento popular e oficiosamente conhecido por lá como Comando de Caça aos Javaneses - CCJ. Não houve a menor comoção nos meios midiáticos importantes.

Há poucos meses atrás, nos arredores da maior cidade de Bruzundangas, 21 javaneses foram chacinados. Sabe-se do envolvimento de policiais, mas até agora pouco se apurou a respeito. 

Em tempo, registre-se também o alto número de presídios (que estão sendo passados para a administração privada - negócio de alta rentabilidade) e uma das maiores populações prisionais do mundo, majoritariamente composta de javaneses, não brancos e/ou pobres. 

Coisas de Bruzundangas. Quaisquer coincidências com a nossa Terra Brasílis tratar-se-á de mera semelhança.
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(*) #PPPP #ChegaDessaSaga #ChegaDessaSina #ChegaDeChacina

terça-feira, 29 de setembro de 2015

O SAMBA É ALMA, É ESPÍRITO… É CULTURA!


Somos nós, os nossos, não somos eles,  os outros. Caminharemos mais e melhor a partir de nossa própria história. Não se trata, definitivamente, de negar e nem desrespeitar a história do outro.[i] (PNS, 17 anos e dois dias do nascimento de uma ideia)
por Selito SD.
Alma, é isso que o Samba é. É o que entendo ser o Samba. É deste modo que, penso, ele deve ser compreendido.
Assim como, por exemplo, o Maracatu, o Jongo, o Congado, o Carimbó, o Boi e outras tantas manifestações culturais afrobrasileiras - marcadas profundamente pelo sagrado - é, o Samba, muito mais que musicalidade ou música, essa entidade compreendida, de modo geral, equivocada e muito superficialmente.
O que ocorre em relação à música, no meu entender, é uma compreensão tosca e entorpecida a partir da qual ela só é considerada esvaída da essência que lhe dá, o conjunto dos outros elementos e/ou valores que constituem ao que se denomina cultura, da qual lhe é imposta a separação.
Deste modo, o Samba, nesse processo que se notabiliza por valorizar a folclorização, a estereotipia, a exotização, a pasteurização e a espetaculização, acaba reduzido a gênero musical – meramente entretenimento. Torna-se um produto, uma mercadoria, resultante da produção massificada e ou alternativa destinada a nicho específico – biscoito fino –, num caso; e vulgarizada – bolacha d’água –, noutro. Todavia, o processo é conduzido, sempre, pela indústria cultural.
Parece óbvio que tomada isoladamente, a música (aí, já menos que musicalidade), jamais poderá ser compreendida e apreendida de modo completo. Tratar-se-á, apenas e tão somente, de um ente reduzido e coisificado, apartado daquilo que lhe é complementar: os já supra citados elementos do conjunto de valores denominado cultura, o qual permeia e é por ele permeado, impactando-o e dele sofrendo impacto. Dando-lhe e dele obtendo significado.
A propósito, as ideias constantes neste ensaio norteam-se por noções básicas segundo as quais cultura pode ser designada como:
“ato, efeito de cultivar, desenvolvimento intelectual, saber; estudo, elegância; esmero; conjunto dos padrões de comportamento, das crenças, das instituições e de outros valores morais e materiais, característicos de uma sociedade”;[ii]
Ou, filosoficamente, “o conjunto de manifestações humanas que contrastam com a natureza ou comportamento natural”;[iii]
Ou; no sentido lato, “o aspecto da vida social que se relaciona com a produção do saber, arte, folclore, mitologia, costumes, etc., bem como à sua perpetuação pela transmissão de uma geração à outra”;[iv]
Ou, sociologicamente, “pode simbolizar tudo o que é apreendido e partilhado pelos indivíduos de um determinado grupo e que confere uma identidade dentro do seu grupo de pertença. Já que para a sociologia não existem culturas superiores e nem inferiores, posto que a mesma é relativa, daí derivando o termo relativismo cultural, segundo o qual a cultura, por exemplo, de um país não é igual à de outro, isto é, diferem nas maneiras de se vestir, e agir, têm crenças, valores e normas diferentes, ou seja, têm padrões culturais distintos”;[v]
Ou ainda, antropologicamente, a cultura pode ser entendida como a totalidade de padrões apreendidos e desenvolvidos pelo ser humano. E, de acordo com definição conceitual primeva sob a etnologia, a cultura seria “o complexo que inclui conhecimento, crenças, arte, moral, leis, costumes e outras aptidões e hábitos adquiridos pelo homem como membro da sociedade”;[vi]
Portanto, corresponde, neste último sentido, às formas de organização de um povo, seus costumes e tradições transmitidas de geração para geração que, à partir de uma vivência e tradição comuns, se apresentam como a identidade desse povo.[vii]
Dessas sintetizadas noções do significado de cultura é que advem a idéia de alma e espírito entendidas como sinônimos ou coisas muitíssimo mais que próximas da cultura. Pois se o ser humano é um ser social - vive em grupo -, por conseguinte, todo e qualquer humano é portador de cultura. Toda e qualquer pessoa possue cultura. Já que é fato que todo e qualquer grupo de indivíduos vive, a priore, sob um conjunto de regras de convívio que normatizam seu cotidiano; regem seus hábitos, regulam o seu modo de vida.
Daí a opção pelo entendimento orientado pelas proposições que apontam para uma compreensão da cultura como um ente açambarcador da diversidade, não hierarquizada e, logo, desvencilhada do jugo da indústria e ou evolucionismo culturais.
Deste modo, para o Samba, para a gente do Samba, entendo que deve prevalecer aquilo que se sabe de si, o que se apreendeu e se apreenderá da própria história de vida, da história dos seus em pertença, história do grupo de pertencimento. Em relação às coisas - os valores - dos demais grupos, que não devem ser desconsideradas, devem prevalecer as coisas - os valores - do próprio grupo enquanto centrais. E devem prevalecer, não por valerem mais que aquelas coisas dos demais outros grupos. Mas sim por pertencerem ao seu grupo e, por isso mesmo, não valerem menos.
A proposição aqui é a de que sejam entendidas as expressões culturais: Maracatu, Jongo, Congado, Carimbó, Boi, etcetera, como pertencentes, cada uma delas, a um grupo de indivíduos cujo conjunto de características o diferenciam dos demais. Assim, temos que cada um desses grupos possui uma identidade própria. Identidade que, dentre os diversos elementos que a constitui, possui a música ou musicalidade, ente pelo qual, via de regra, acaba única, exclusiva e equivocadamente conhecida.
Cabe, entretanto, atentar para o fato de que todos esses grupos possuem caracterírsticas que os aproximam, conformando um grupo maior de portadores de característica que os universalizam, a saber: a afrobrasilidade. Posto que refletem, em suas práticas cotidianas, idiossincrasias de matrizes culturais africanas, heranças essas de diversificadas origens em África e que, desterradas pela diáspora, aportaram por aqui (na Terra Brasilis) em lugares e tempos diversos. Já fragmentadas e, às vezes, apenas resquícios.
Todavia, seus portadores submeteram-nas a importantes processos de ressigfinificação, que implicaram em sincretismos entre si, possibilitadores da manutenção das identidades, das histórias, da continuidade – do sentido da vida –, a partir de processo de recriação.
Daí, decerto, decorre um fortíssimo hibridismo entre suas práticas. Mas, importa apontar para a diversidade lá e cá, antes e depois da diáspora. E, como já foi dito, o conjunto de elementos característicos e próprios de cada grupo o diferencia dos demais e, conseqüentemente, faz aproximarem-se os indivíduos que lhe são internos, dando-lhes identidade própria e singular.
Tais elementos implicam o comportamento, os costumes, o jeito de ser, os hábitos, os valores adotados e que marcam e são marcados pelo dia-a-dia, pelo cotidiano. E, é óbvio, tudo isso inexoravelmente se faz refletir na música, na musicalidade, bem como nos demais entes (culinária, ritos sagrados, etc.) que expressam os fazeres do grupo. E os muitos grupos possuem características comuns que os aproximam, constituindo um grupo maior marcado por uma universalidade dada por características gerais. É o caso dos exemplos utilizados.
No Samba, para além da historiografia oficial, há uma grande diversidade. É diverso o povo do samba. É necessário, para uma melhor compreensão, atentar para a instituição, em tempos idos, do fenômeno Rádio Nacional, do Rio de Janeiro, submetida ao DIP - Departamento de Imprensa e Propaganda, criado à 27/12/1939 e composto por cinco divisões: Divulgação, Turismo, Imprensa, Cinema-Teatro e Rádio, projeto getulista de integração nacional, que impactou contundentemente, com o intuito de controlar e homogeneizar, as culturas do/no território nacional. Meses depois, por meio do decreto-lei n. 2.557, de 04/09/1940, foram instituidos os DEIPs, Departamentos Estaduais de Imprensa e Propaganda, como tentáculos do DIP nos Estados, buscando a cooperação dos então governadores. O DIP fornecia suporte técnico e doutrinário, de modo que os DEIPs fossem expressão do pensamento getulista e o interpretassem para os governos estaduais. [viii]

É dessa intervenção na música que surge o samba-exaltação, cujo ponto de partida é marcado com "Aquarela do Brasil", de Ary Barroso, em um momento que imperantes nos centro urbanos eram o samba e o maxixe, os primeiros capturados, enquanto gêneros musicais, pela indústria cultural. Isso, em um momento em que, suporte do regime pós Revolução de 1930, os populares urbanos já tinham suas expressões musicais veiculadas, desde o fim da década anterior, nas primeiras radios. É então que, intelectuais como integralista Luiz da Câmara Cascudo (e modernistas, inclusive) ligados ao Estado Novo, concluem ser necessária a "depuração" e direcionamento desses “gêneros folclóricos carentes de erudição” a ser dada por compositores como Ary Barroso e Radamés Gnatalli, por exemplo.[ix]

Muito fortemente combatido foi o Samba-Malandro, pois no Estado Novo, a ojeriza ao trabalho, cuja origem devia-se às suas precárias condições na vigência do escravagismo, não podia ser tolerada. Afinal, “as condições de desigualdade se haviam extinguido no novo regime!” E a malandragem tratava-se, então, de um anacronismo histórico não mais tolerável. O DIP decidiu eliminar a figura do malandro e o elogio à malandragem, por duas linhas de ação, a saber: cooptação e rigorosa censura. Só em 1940, 370 músicas e perto de 100 programas de radio foram censurados por conta de seus temas e linguagem utilizada (gírias, vícios de linguagem, etc). E quanto à cooptação dos sambista, é sabido, foi a época na qual destacados boas-vidas dos morros cariocas passaram (por malandragem) a exaltar as vantagens do trabalho e da vida regrada. Icônico exemplo é a samba "Bonde de São Januário" (Ataulfo Alves e Wilson Batista, 1940) que na escrita original seu refrão dizia: "O Bonde São Januário / leva mais um otário / que vai indo trabalhar". E após suposta interferência do DIP, nasceu a versão conhecida: "O Bonde São Januário / leva mais um operário / sou eu que vou trabalhar". Verdade ou não, fato é que "regeneração" de malandro, da exaltação do trabalho e da família, tornou-se tema corriqueiro dos sambas do período.[x]

Contudo, é possível, caso se queira, perceber sob o vel da indústria cultural, a diversidade contida no universo sambístico - do rural ao urbano. Diversidade do povo do samba migrado para o, então, maior e principal centro urbano brasileiro, retirante de localidades e regiões diversas - fluminenses e do território nacional.

Dentre essas localidades e regiões estavam os centros menores. E mesmo em lugares não centrais como, por exemplo, a então provinciana cidade de São Paulo, capital do estado homônimo, também havia Samba, já que havia, parece óbvio, muitos negros. Povo do Samba migrado dos interioranos cafezais, com suas características próprias e uma história quase que só veiculada pela oralidade, documento vital para os da cultura.
Portanto, rumando para a finalização deste, quiçá, meio confuso escrevinhado, pautado pela proposição de um outro jeito de apreender a música - musicalidade -, cabe enfatizar que se for para entender o samba como mero gênero musical, podem ser considerados sambistas, tanto, inclusive, quaisquer indivíduos do sudoeste asiatico, como quaisquer outros, da escandinávia, por exemplo, que cantem, toquem e/ou dancem (ainda que à sua maneira), o samba.
Mas… É preciso que o Samba se conheça; faz-se necessário que saiba mais de si mesmo, das suas coisas para que possa dar continuidade à sua linhagem. Tem a responsabilidade, o Samba, de melhor se conhecer, para se fazer conhecer melhor. Para seguir em frente, garantir o seu futuro, que será vivido e vivenciado pelas gerações futuras de sambistas. Elas que receberão o legado que vem sendo passado com a marca das gerações ancestrais, e no qual terão que colocar a sua marca, e legar para os que continuarão vindo também colocarem a sua. Pois só assim o Samba seguirá mais e mais fortalecido, imortalizado, e tornando os seus, melhores e mais firmes. Melhoria e firmeza a serem expressas por sua música - musicalidade.
Fato é que o Samba, aqui discutido, é muito mais que (e anterior à) arte; é muitíssimo mais que música (de si um recorte). É cultura!
Saudações Sambísticas!
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Selito SD: Sambista, compositor e pesquisador, ex-integrante do Movimento Cultural Projeto Nosso Samba de Osasco, quase Geógrafo pela USP, Integrante do Coletivo Zagaia e do Cordão da Mentira. 



[i] http://projetonossosamba.blogspot.com.br/2007/10/o-samba-nosso-esprito-nossa-alma-nossa.html
[vi] TYLOR, Edward Burnett (1832). “Internet Archive“. Encyclopædia Britannica (XI edição) Volume XXVII. New York: Encyclopædia Britannica. pág. 498. Visitado em 11-02-2011
[viii] Vicente , Eduardo. - A Música Popular Sob o Estado Novo. Versão Revisada doRelatório Final da Pesquisa de Iniciação Científica PIBIC/CNPq, realizado na Universidade de Campinas em Janeiro de 1994. São Paulo, março de 2006, p15.
[viii] Idem, p.18
[ix] Idem, p. 36-38

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Valente (No cais)


Inhaca
no porto
tá morto
o Zaca

Na maca
o torto
bem morto
de faca

Temido
bateu
matou

Ferido
morreu
passou

quinta-feira, 19 de março de 2015

Da fonte de inspiração do nome, da digina, do querido e muito desejado filho - Selito SD.


Um soneto para o meu querido filho
E o fruto do Bello Pomar-Jardim,
o espera, um tanto ansiosa, a claque,
e já o pensa na vida um craque,
pois que é de entes cordiais enfim…

E o repicar do velho tamborim,
virou no toque do Rum (forte baque),
e vigoroso e intrabusto atabaque,
faz estrondar-se em batidas sem fim.

Seja bem vindo e muito bem vindo,
você que já é no mundo o mais lindo;
que já é Força Vital que conduz…

a esse bamba - esse negro drama -,
e a mais nobre, meiga e bela dama
Filho... Nzazi Djrdjrjan de Jesus


Nzazi é como, após um bom tempo pensando em possíveis combinações de um nome composto - idéia, por fim, abolida -, minha bela Tati Bello e eu resolvemos nominar nosso querido filho.
Tinha comigo há muito que, fosse menino ou fosse menina (ao que também abraçou-se a minha amada cúmplice), o bebê teria um nome de origem Africana. Mais especificamente, bantu, um nome originário da região Congo/Angola, de onde muitíssimo provavelmete vieram, senão os pais, decerto os avós de meus avós, maternos e paternos. Pressagio que, talvez, tenham vindo de lá, de um ponto qualquer da bacia do grande Rio Kwanza. A jusante, no vale do Rio Culala, seu maior afluente, ou bem a montante, mais para o interior, junto à sua cabeceira, no vale do Rio Cuíva, enfim...
Assim sendo, a fim de dotar de um pouco de informação a respeito da escolha, tanto os familiares quanto os amigos, é que foi produzido esse breve escrevinhado, um ajuntamento composto de breves textos, excertos, imagens, tudo ajustado um tanto toscamente, mas que cumpre bem, penso, seu objetivo. Bora lá.

Nzazi
Tat'etu Nzazi é o raio sagrado. Nzazi é variante da palavra Nzaji, que significa raio. Motivo pelo qual essa Divindade da Mitologia Bantu é associada ao raio, ao fogo, intimamente ligada aos trovões, e mesmo às pedras segmentadas pelos choques causados pelas descargas elétricas naturais, ao tocarem o solo.
Nzazi, segundo a mitologia, possui natureza arrojada e costuma cavalgar pelos céus com seus 12 cães (raios), executando a justiça. Consta ainda que, quando em uma aldeia uma casa é atingida por um raio, a família é banida da comunidade, por se acreditar que tal fato ocorreu como punição, por conta de faltas graves cometidas. Essa Hamba (Divindade) muitíssimo severa, que atua com ênfase no mundo psíquico, pode punir até com a morte.
Nzazi é muitas vezes confundido, erroneamente, com o Orixá Xangô (Orisá Sángò), dos Nagôs. Suas cores são: branco, laranja, vermelho e marrom. Sua comida: dibangulango (quiabo refogado no dendê). Sua saudação é: A Ku Menekene Usoba Nzazi (Salve o Rei dos Raios). E a resposta: Nzazi Ê!
Cantiga:
O Nzazi e! 
O Nzazi a!
O Nzazi e!
Ma N’angule, Ma N’Angola

Nzazi é a luz divina
Nzazi é a luz que nos alumia

No candomblé Bantu, Nzazi e Loango são o próprio raio. Representam a união entre os dois mundos: o Ixi (a Terra) e o Duilo (o Céu). Sua ferramenta representa bem isso com duas cabaças unidas por um pedaço de bambu. É a própria representação do raio que num piscar de olhos cruza o céu e cai na terra transformando a matéria. Nzazi é o movimento a energia Nkisi de opinião forte e objetiva
Quanto à origem étnica, Nzazi é nome kimbundo. O kimbundu, quimbundo, dongo, kindongo, loanda, mbundu, loande, luanda, lunda, mbundu, n'bundo, nbundu, ndongo ou mbundu do norte é uma língua africana falada no noroeste de Angola, incluindo a Província de Luanda. É uma das línguas bantas mais faladas em Angola, onde é uma das línguas nacionais. O português tem muitos empréstimos lexicais desta língua obtidos durante a colonização portuguesa do território angolano e através dos escravos angolanos levados para o Brasil. É falada por cerca de 3 000 000 de pessoas em Angola como primeira ou segunda língua, considerando, também, 41 000 falantes do dialecto ngola.
Em termos de importância numérica, o segundo grupo são os Ambundu que representam cerca da quarta parte da população. A sua língua, o kimbundu, é falada por cerca de três milhões de falantes, maioritariamente na zona centro-norte, no eixo Luanda-Malanje e no Kwanza-Sul. O kimbundu é uma língua com grande relevância, por ser a língua tradicional da capital, hoje provavelmente com mais de 5 milhões de habitantes. O kimbundu legou muitas palavras à língua portuguesa e importou desta, também, muitos vocábulos.

Lenda de Nzazi – por Tata Obalumbi
Nzazi era muito voluntarioso e mantinha a ordem no seu reino pela violência. O povo não gostava disso. Com as visitas de Lembá, e os conselhos que ele dava, Nzazi ficou menos violento. O reino prosperou muito.
Nzazi tinha em seu reino muitos cavalos e carneiros, que eram a sua predileção. Um dia ele saiu com seus homens para conquistar novas terras, e na sua ausência os carneiros foram roubados, e os que restaram foram mortos. Sabendo do ocorrido Nzazi voltou correndo, mas só escapou um casal de carneiros. Ele os levou para o reino de Lemba, no céu (duilo),e pediu-lhe que cuidasse deles, e partiu atrás dos ladrões.
Nzazi passou muito tempo procurando os ladrões, e chegou ao alto de uma montanha que cuspia fogo, onde encontrou Uiangongo, aquele que tinha o poder do fogo. Este lhe deu um pó mágico para combater os ladrões, quando os encontrasse.
Passado algum tempo Nzazi achou os ladrões de seus carneiros, e lançou sobre eles o pó mágico. Este se transformava em lava incandescente, e acabou com todos os bandidos.
Acontece que enquanto Nzazi procurava os ladrões, às vezes ele ouvia um ruído vindo do céu, “kabrum, kabrum”… A cada dia o ruído era maior e mais frequente. Após acabar com os ladrões Nzazi foi ao reino de Lemba para pegar seus dois carneiros de volta.
Chegando lá, Lemba explicou que devido à demora de Nzazi os carneiros haviam procriado e se multiplicado, e que o barulho dos chifres deles lutando uns com os outros se ouvia em toda parte, “kabrum, kabrum”. Nzazi levou os carneiros de volta, mas Lemba explicou que eles não mais poderiam ser comidos, pois haviam sido criados no céu. Nzazi concordou, e deu a Lemba um casal de carneiros como presente. Por isso até hoje escutamos ruídos vindos do céu, “kabrum, kabrum”. 
De volta ao seu reino Nzazi explicou ao povo que aquele animal agora era sagrado e não poderia mais ser comido. Contou suas aventuras em busca dos ladrões, mas como muitas pessoas se interessaram pelo pó mágico ele, com medo de ser roubado, resolveu guardá-lo em lugar seguro, e engoliu o pó.
A partir desse dia começou a soltar fogo pela boca, e queimou todo o reino com pedras incandescentes. Teve que se isolar, pois se ficasse zangado começava a cuspir fogo. Só aparecia quando o povo estava em perigo e o chamava. Ele então arrasava os exércitos inimigos com suas pedras incandescentes.
Saudação: “Nzazi Kiua! Nkuetu hámba luango, muene kitula tubiaxó, tubiaxó, tubiaxó!” 
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Fontes: 

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Té cavaquinho é tambor!



Paletada do cavaco

é toque. Samba rasgado,

de caboclo ou cabula…

Ou congo – congo de ouro.



Marcação também, destaco.

Todo samba é batucado.

Se preciso, olhe a bula

para instrução de calouro:



“Todo batuque é mandinga.

 Té samba gospel é macumba.

 Não adianta careta!



 Tem a síncopa, tem ginga.

 E a curimba retumba

 no percutir da paleta.”



Também em: Zagaia Em Revista

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Novos porcos**


Na mais descarada e tirana ironia

Se vangloria o jornal*: “Matamos poucos!”

E os suínos velhos replicam novos porcos

Que geram novas mortes destes novos dias


E não sumiram marcas fundas, cicatrizes

E ouvirás toda a verdade e ela dói

Pois todo mundo aqui é órfão de um herói

Feito ausente por cães vis, cruéis juízes


Muitas perguntas nos escapam da garganta

Quem torturou? E quem pagou? Quem assistiu?

Quem fez da nossa Pátria Mãe, madrasta vil?


Porque protegem tanta gente sacripanta

Que torturou e que matou e que feriu

Onde é que estão os traidores do Brasil?


[**] Samba que integra o repertório do Cordão da Mentira e que embalou seu primeiro desfile, uma parceria com o meu mano Thiago B. Mendonça.
[*] A Falha de Sampa